O Fascismo Hoje
O
fascismo existe hoje? Para Paul Mason, sim. Como ameaça: Trump, o QAnon, o
Capitólio, Bolsonaro, sem esquecer o que o autor designa por “mito central do
fascismo moderno”: a Grande Teoria da Substituição.
“(…) o feminismo faz baixar a taxa de natalidade,
possibilitando que imigrantes “colonizem” e destruam a “raça” branca; os
colaboracionistas nesta ocupação são os políticos que defendem os direitos das
mulheres e dos negros, bem como os meios de comunicação liberais que os
apoiam.” (p. 327)
Mas o fascismo está ainda presente
“(…) em ações de milícias nas cidades norte-americanas;
infiltra-se nas manifestações contra o confinamento organizadas por
teorizadores da conspiração; constitui células nas forças armadas e na polícia;
pinta suásticas em túmulos judeus; e em seguida aflui às urnas para votar em
pessoas que prometem “tornar o país novamente grande” (…)” (p.315)
“Em cada grande crise do capitalismo,
há um terceiro desfecho potencial que não é o socialismo nem a sobrevivência do
capitalismo: é o desabar da legitimidade da elite e da sua ideologia
tradicional, e a rápida conversão das pessoas ao irracionalismo, à
autodestruição e ao ódio. O tempo histórico não pode ser revertido, mas o
progresso sim.” (p. 266)
À queda das
grandes civilizações, quando o seu potencial de desenvolvimento se esgotou,
sucedeu a barbárie. Novos despertares, apenas séculos depois. Mason refere, a
título de exemplo, Alexander Dugin, - pensador de extrema-direita considerado
um dos principais mentores de Putin:
“Dugin acredita que, se um país como
a Rússia pode reverter a sequência histórica prevista, do comunismo novamente
para o capitalismo, então, pode revertê-la ainda mais, para o feudalismo ou
para uma sociedade esclavagista, ou até para uma existência de caçadores-recoletores.”
(p. 61)
Mas, populismo ou propaganda enganosa à
parte, quem esperaria das primeiras forças fascistas de Mussolini (Fasci Italiani
di Combattimenti) esta tão grande manifestação de “espírito progressista”?
“(…) O primeiro manifesto que divulgaram,
em junho de 1919, defendia o dia de oito horas, um salário mínimo e um sistema
fiscal progressivo para “expropriar parcialmente” os donos das fábricas. “ (p.
146)
Finalmente, e em
especial para reflexão interna:
“Quando, a 31 de julho de 1932, foram
divulgados os resultados das eleições, ficou à vista o custo de dois anos de
ilusão e divisão: 13,8 milhões de eleitores tinham votado nos nazis. Hitler
açambarcara ainda mais a base dos partidos tradicionais e – para consternação
deles – socialistas e comunistas viram a sua periferia começar a saltar para o
lado dos nazis.” (p. 230)
Por cá, temos também
o Chega – o atual ou qualquer outro e os respetivos Ventura(s). E,
principalmente, o seu potencial para crescer, por enquanto resguardado à sombra
das ruínas do liberalismo, nos seus mais diversos matizes: de uma “esquerda”
que esqueceu há muito qualquer ideia de revolução (?), passando por uma “social
burocracia” de guichet, ao neoliberalismo falido. A este fedor de
cadáver junta-se também um “cristianismo de sacristia”, beato, pedófilo e
cristianissimamente analfabeto. (A minha vénia ás exceções da casa, que continuo
a ler sempre com um sentimento de apreço e gratidão. Sem excluir outros poucos,
lembro Anselmo Borges e Frei Bento Domingues). Certamente que, como já alguém
disse, Cristo se vivesse hoje seria tudo menos cristão. Da mesma forma que,
acrescento eu, Marx dispensaria cartão de “sócio” de qualquer das agremiações
que o têm como patrono.
A boa nova (evangelho),
o risco e a aventura que sempre estiveram presentes em toda e qualquer
tentativa de busca da liberdade e desenvolvimento do homem – de Cristo a Marx,
passando pelas Luzes – encontram-se hoje
em pequenos grupos e organizações marginais à tutela dos partidos tradicionais:
o feminismo, os grupos LGBTQI+, as organizações de luta pela preservação do
clima, os grupos de luta anti-racista, os grupos de apoio à integração dos
migrantes, entre outros. São estes grupos que, para além dos seus objetivos
específicos, poderão também participar no desenvolvimento de uma cultura
anti-fascista – como defende Paul Mason –, alargada a um espaço social mais
amplo do que o de cada um, e que simultaneamente constitua uma base para dar
sustentação aos seus objetivos próprios.
Como travar o
fascismo? – Começa aqui, mas fica para a próxima.
nelson anjos
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