Augusto Cury
O autor Augusto Cury, que é também psiquiatra, psicoterapeuta
e cientista, assina esta história passada nos meandros de salas de aula na
universidade e consultórios médicos que, de resto, são lugares plenos de personagens
que conhecerá bastante bem.
Colocando-se como narrador/observador, despido de qualquer
pretenção a um lugar no pódio da humanidade, apresenta-nos uma balança de
múltiplos pratos onde procura equilibrar a igualdade de sermos humanos.
Desenvolve a narrativa expondo as fraquezas entre o aluno e o professor...
“- Os professores são
heróis anónimos, meu amigo. Trabalham muito, ganham pouco. Semeiam sonhos numa
sociedade que perdeu a capacidade de sonhar. (...)
Uma das tarefas mais
difíceis do mundo é ensinar um professor que perdeu a capacidade de ser aluno.
(...)
- O sistema académico
não precisa de conserto, mas de uma revolução. Gera gigantes na lógica mas
crianças na emoção. Os alunos não aprendem a libertar a criatividade, a ser
empreendedores, a lidar com riscos e desafios. As faculdades ensinam a amar o
pódio, mas não ensinam a usar as derrotas.”
... entre o médico e o
paciente...
“Marco Polo tornou-se
mais ousado e quebrou os paradigmas do atendimento. Começou a sair do
consultório e a receber os doentes na própria sala de espera. (...)
Lisonjeados, os doentes sentiam-se pessoas de raro valor e não doentes. (...)
Reconheço que sou um
jovem psiquiatra e não tenho o seu currículo. Mas reconheço também que a
ciência mais lúcida debate as ideias de um pensador pelo seu conteúdo e não
pelos títulos que o autor apresenta. Creio que os verdadeiros cientistas amam o
debate e não a submissão.”
... entre o pai e o
filho...
“Era de se esperar que
psiquiatras ou psicólogos raramente gerassem filhos doentes. Mas sabiam que
vários profissionais da saúde mental, incluindo alguns dos psiquiatras
presentes, tinham filhos «stressados», deprimidos, fóbicos, tímidos e com
outros conflitos.
Todo o conhecimento
lógico sobre a mente humana que possuíam não fora suficiente para lhes garantir
o sucesso na formação da personalidade dos seus filhos. Entenderam que educar
era lavrar um solo ilógico. Todo o ser humao, mesmo os psiquiatras e os
psicólogos, tem dificuldade em pisar esse terreno sinuoso.”
... daquilo que é ser
humano.
“Marco Polo defendeu a
sua tese com veemência. Comentou que o princípio da co-responsabilidade
inevitável demonstra que as relações humanas são uma grande teia multifocal.
Revela que ninguém é uma ilha física, psíquica e social dentro da humanidade. Todos
somos influenciados por outros. Todos os nossos actos, quer sejam conscientes
ou inconscientes, quer sejam atitudes construtivas ou destrutivas, alteram os
acontecimentos e o desenvolvimento da própria humanidade.
Qualquer ser humano –
intelectual ou iletrado, rico ou pobre, médico ou doente, activista ou alienado
– é afetado pela sociedade e, por sua vez, interfere nas conquistas e perdas da
própria sociedade através dos seus comportamentos. Marco Polo queria dizer que
todos são co-responsáveis pelo futuro da sociedade e, consequentemente, pelo
futuro da humanidade e do planeta como um todo.”
Mais uma vez encontro um autor que parte do princípio da
igualdade enquanto seres humanos, apesar de, inevitavelmente, sermos
diferentes. Em contexto escolar refiro frequentes vezes (já o fiz aqui) a
urgência de termos alunos que sejam tratados enquanto seres humanos dentro da
sala de aula pelos professores e vice versa, não apenas reduzidos a ferramentas
de trabalho.
O que Augusto Cury me apresentou não é novo, é apenas a
constatação de algo que eu nunca tinha parado para observar: esta igualdade
humana que existe em todos os extremos das definições que temos uns dos
outros... em última análise o louco e o
são.
Rita Anjos
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