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Tambores ao Longe

       Tambores ao Longe – Incursões na Extrema-Direita Mundial, é uma descrição das organizações mais representativas da extrema-direita mundial e dos seus modus operandi, principalmente no que às duas últimas décadas diz respeito. Grupos diversos e figuras representativas de correntes de opinião dos mais variados matizes da direita, cada qual com as suas especificidades, são devassados e trazidos ao escrutínio público, através de métodos de infiltração, nas respetivas organizações, protagonizadas pelo próprio autor da obra – Joe Mulhall – e da organização antifascista e antiracista britânica de que é militante: a HOPE not hate (Esperança e não ódio) (HNH).

       De uma miríade de nomes menos conhecidos do grande público, destacam-se os incontornáveis Trump, Bolsonaro, mas também Modi, na Índia, com a sua ligação à RSS (Rashtriya Swayamsevak Sangh) (Organisação Nacional de Voluntários), órgão destacado do nacionalismo hindu referenciado como um dos mais violentos e poderosos grupos de extrema-direita do mundo.

       No caso de Trump, os antecedentes económicos que o levaram ao poder encontram-se claramente identificados:

“(…) A desindustrialização e o declínio das fábricas afetou comunidades em todo o país. Em 1965 a quota de emprego fabril na América era de 28 por cento e em 1994 caiu para apenas 16 por cento. Recentemente houve nova vaga de desindustrialização e estima-se que, entre 2001 e 2009 tenham fechado mais quarenta e duas mil e quatrocentas fábricas em todo o território dos EUA. (…)”

       Sobre isto, Trump disse:

“(…) Os nossos políticos desenvolveram agressivamente uma política de globalização transferindo os nossos postos de trabalho, a nossa riqueza e as nossas fábricas para o México e para o estrangeiro. (…)”

       Joe Mulhall não se coíbe de confirmar parcialmente:

“(…) Estas afirmações revelam, inquestionavelmente, um nível de hipocrisia impressionante: os produtos com a marca “Trump” têm sido produzidos em regime de contratação na China, no Brasil, nas Honduras, na Europa e ainda mais longe (…). Mas nada disto significa que o que Trump disse não seja verdade, pelo menos em parte. (…)”

       Já no que diz respeito à generalidade das organizações, as causas – económicas, políticas, sociais – da sua génese são omitidas, ou surgem desfocadas, dando a obra primazia, em muitas páginas com sabor a tríler, à ação e ao rocambolesco das situações vividas pelo autor nos processos de infiltração nas organizações. A este “senão” acresce outro que não é de somenos: um pouco por todo o planeta, principalmente pelas américas e europas, Mulhall encontra e denuncia sementes de fascismo e/ou extrema direita. Estranhamente, fica fora do seu radar o fascismo russo; e sobre a China também nada é dito…

       Mesmo assim, fica a sugestão de Tambores ao Longe como leitura de férias. Que a agenda da cidadania não contempla férias. As democracias têm inimigos que é importante conhecer, residindo os mais perigosos no interior de si mesmas. Desde logo o estatismo, o tédio social e as suas consequências, também conhecidos genericamente por “paz social”. As democracias não podem ficar confiadas às mãos de burocratas; a sua defesa mais segura assenta no que é a essência dos seus alicerces: o caminhar, o desenvolvimento radical e a construção permanentes. E os seus agentes e baluarte decisivos terão de ser os cidadãos comuns. A alternativa será o cadáver em decomposição lenta. Ou acelerada.

nelson anjos

Comentários

Como combater estes 'líderes', que já estão enraizados na nossa sociedade há muito tempo... Foram se instalando sorrateiramente, e o caos já está bem representado... Não conheço o autor, mas o que foi publicado, é suficiente para perceber a situação que vivemos. Todos os países, para terem mais lucro, levaram as suas fábricas para países com mão de obra mais barata, e passando as sedes, para países onde a fiscalização é menor. Tudo isso faz com que sejamos nós, cidadãos comuns, a pagar impostos muito desiguais,para colmatar e enriquecer os que já o são, desonestamente... A situação do covid, mostrou claramente que todos dependemos da China em tudo, ou quase tudo. Com a guerra da Rússia com a Úcrânia, já chegamos a outro patamar da história, e da nossa dependência dos cereais, do gás, etc... A democracia leva mais uma machadada, pois o processo de globalização, implica distribuição desigual, e que cada país só possa produzir certos bens, no geral... Para o bem de todos, as grandes empresas, deveriam ser obrigadas a ter as sedes no país de origem, regressando com o fabrico no país, dando trabalho aos seus concidadãos. Isso não implica que não pudessem ter sucursais em outros países. Na agricultura,pesca e outros, dar primazia ao que é Nacional. E ter os produtos de época! Não é necessário ter sempre tudo o ano inteiro! Ingerimos mais do que o necessário diáriamente. Isto é o que penso!

Cecília Pedro

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