Elogio da Homossexualidade
Começo pelo menos interessante que, como
se sabe, é a parte já resolvida do problema. Homossexualidade: sim ou não? Saltemos
por cima do testemunho de gregos e romanos. Para efeitos de tempos modernos
basta-nos Stuart Mill: Sobre a Liberdade. Está lá o suficiente:
“(…) A única parte da conduta de qualquer pessoa pela qual
responde perante a sociedade, é a que diz respeito aos outros. Na parte da sua
conduta que apenas diz respeito a si, a sua independência é, por direito,
absoluta. Sobre si, sobre o seu próprio corpo e a sua mente, o indivíduo é
soberano. (…)
A única liberdade que merece o nome é a liberdade de procurar
o nosso próprio bem à nossa própria maneira, desde que não tentemos privar os
outros do seu bem, ou colocar obstáculos aos seus esforços para o alcançar. (…)”
Ponto final parágrafo. Quanto ao mais, e
em termos meramente subjetivos, afigurando-se-me a homossexualidade do autor –
Luís Alegre, professor de filosofia e membro do Podemos – tão natural para ele quanto
a minha heterossexualidade o é para mim, não vejo, nas razões apresentadas, motivo
para o Elogio, que envolve sempre alguma forma de distinção. E as
virtudes reclamadas como tal, para a homossexualidade, não me parecem sê-lo
menos para a heterossexualidade; ou para qualquer outra expressão sexual. A
haver lugar ao elogio – e há – será antes para a coragem das minorias que não
temem expor as suas orientações sexuais, ou expressões de género que a
linguagem normalmente lhes associa, afrontando todas as formas de estigma
social que ainda predominam nas opiniões públicas sobre o tema. “A coragem que
é preciso para ser, por exemplo, transexual numa escola secundária é comparável
à que necessitou Nelson Mandela para enfrentar o apartheid ou à que mostrou
Gandhi lutando contra a opressão colonial.” Escreve Luís Alegre e eu concordo.
Não temendo o anúncio recorrente da
morte de Froid, ou do démodé Foucault, Alegre não prescinde também de
chamadas pontuais à inteligência agudíssima de Judith Butler. E faz bem. Pena é
que não tenha abusado mais dela – Butler nunca está em excesso. Se é clara em
Luís Alegre a perceção do caráter difuso das fronteiras – ou mesmo ausência
delas – entre as diversas orientações sexuais – LGBTQI+(H) (o “H” acrescentei-o
eu) – o mesmo não acontece relativamente a outras questões. A ditadura e os
equívocos da linguagem, que o autor aborda com muita lucidez, em muitas partes
do livro, continua a impor-lhe, apesar disso, fronteiras rígidas, quando fala por
exemplo em cultura e natureza. “Quanto há de natural e
quanto há de construído por nós em tudo aquilo que somos?” – pergunta o
autor. Serão cultura e natureza aspetos da realidade assim de tal
modo compartimentados? – como disse mais uma das minhas mulheres preferidas: “A
linguagem lança mãos-cheias de realidade sobre o corpo social” (Monique
Wittig).
Sem menosprezar outros aspetos do
pensamento de Alegre, que justificam a leitura do livro, é a abordagem às questões
da linguagem, esse cinzel que tem vindo ao longo de milénios a esculpir a
“realidade” das coisas, a meu ver um dos seus aspetos mais interessantes. Porque
é com palavras que pensamos e construímos a “realidade”.
A propósito de linguagem e fazendo jus à
seally season: já na parte final do seu livro, Luís Alegre, que antevê o
fim da era da heterossexualidade, deixa a sugestão de quão benéfico seria a atribuição
de subsídios a comunidades homossexuais, para se instalarem nas zonas rurais,
com o objetivo de esclarecer e educar as populações com vista aos novos tempos
e aos benefícios da homossexualidade. A tolerância dum homem do campo tem
limites: – T’arrenego Satanás! Apenas por cima do meu cadáver! Fica lá com
essas poucas-vergonhas da cidade, que aqui somos todos muito machos, ouviste!? O
que vocês são é uma corja de panelei … (ai o que eu ía dizer… desgraça de linguagem
a minha! Se não fosse isto, eu podia já ter chegado até, sabe-se lá, a PQC (Presidente
de Qualquer Coisa)).
Elogio da Homossexualidade: a ler
e a refletir. Não precisa de concordar com tudo.
nelson anjos
Comentários
Nelson Anjos aborda de forma informada este livro de Luís Alegre.
Como escreve "não precisa de concordar com tudo", aliás não me
parece que seja esse o sentido do autor deste texto.
Um livro a ler, não esquecendo que como escreveu Foucault
"Onde há poder, há resistência".
Júlia Correia
nelson