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Os Idiotas Digitais e os Outros

     

       Os Idiotas Digitais e os Outros – é o título alternativo que proponho para A Fábrica de Cretinos Digitais, de Michel Desmurget.

       Em todos os tempos, ao longo da sua história, o homem deparou-se com a necessidade de substituir velhos saberes, por outros, que foi paulatinamente desenvolvendo, para melhor responder aos desafios colocados pela sua própria existência. Claro que, quando o neto mais atrevido do clã se lembrou de tapar a entrada da caverna com um enorme pedregulho, para maior proteção contra os ataques noturnos das feras, terá ouvido o coro unânime de pais e avós que habitavam também o “condomínio”:

- Este rapaz é maluco! Vai-nos matar a todos com falta de ar. Além do mais, nem sequer poderemos ver as estrelas, o luar, ou o nascer do Sol, para sabermos quando sair da caverna e irmos caçar e procurar frutos.

       Pior ainda quando o endiabrado rapaz, para transportar pedras mais pesadas de um local para outro, resolveu faze-las rolar sobre troncos de árvore para facilitar a tarefa:

- Esta juventude de agora não quer fazer nada! Já nascem cansados! Qualquer dia nem sequer têm força nas pernas! No meu tempo aquilo era arrastado por dez homens, à força de braços, sem auxílio do que quer que fosse.

       E foi assim que, de pedregulho em pedregulho, chegamos às redes por onde fluem catadupas de megabits, que já não transportam pedras, mas coisas tão leves como sons e imagens. E ameaçamos também fazer colapsar este enorme pedregulho que continuamos a habitar: o planeta Terra.

       A lógica de pensamento que acabo de exemplificar encontra-se criticada na obra que temos em mão; e o autor do respetivo prefácio, Carlos Neto, apressa-se a clarificar:

“(…) O autor desta pertinente obra considera que o seu texto não é tecnofóbico e que tem como principal missão informar os leitores sobre as conclusões científicas existentes. Daí que não tenha exitado em afirmar, numa entrevista, que os jovens de hoje são a primeira geração da história com um QI inferior ao dos pais. (…)”

       Assente nas conclusões de uma longa lista de estudos e números – que por vezes tornam a leitura difícil – os alertas relativamente aos malefícios da droga digital visam essencialmente os mais novos e referem-se  principalmente às aplicações lúdicas, de que se destacam os videojogos. Antes dos seis anos de idade, zero de écrans – é a receita deixada pelo autor.

“(…) se quiser exacerbar a exposição dos seus filhos ao digital, assegure-se de que os pequenos têm o seu próprio telemóvel e o seu tablet, não se esquecendo de lhes equipar o quarto com televisão e consola. Este último pormenor acabar-lhes-á com o sono, com a saúde e com o aproveitamento escolar, mas pelo menos ficarão sossegados e o leitor terá paz. (…)”

       A oportunidade de muitas recomendações não escusa a leitura crítica. Mas, principalmente, não se deixe tomar pelo pânico e tornar preza de qualquer outra das muitas formas de idiotia social. Que é como quem diz: substituir o tabaco pela cocaína.

nelson anjos

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