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Esquerdas de Todo o Mundo, Uni-vos (?)

       Volto a Boaventura Sousa Santos (BSS). Desta vez com Esquerdas de Todo o Mundo, Uni-vos!, onde substituo o ponto de exclamação do título do livro por um ponto de interrogação (?). Ao sentido, ou não, do apelo, coloca-se-me antes de mais a necessidade de resposta à(s) pergunta(s): unir para quê? em torno de que grande ou grandes ideias? – que de ideais está o mundo cheio.

“(…) Continuam a ser possíveis rupturas violentas e golpes de Estado, mas é cada vez mais evidente que os perigos que a democracia hoje corre são outros, e decorrem paradoxalmente do normal funcionamento das instituições democráticas. As forças políticas antidemocráticas vão-se infiltrando dentro do regime democrático, vão-no capturando, descaracterizando-o, de maneira mais ou menos disfarçada, e gradual, dentro da legalidade e sem alterações constitucionais, até que em dado momento o regime político vigente, sem ter formalmente deixado de ser uma democracia, surge como totalmente esvaziado de conteúdo democrático, tanto no que respeita a vida das pessoas como das organizações políticas. Umas e outras passam a comportar-se como se vivessem em ditadura. (…)”

       Ao que diz BSS acrescento eu que, as forças sociais de direita têm sido muito mais sagazes no aproveitar aquilo que é a democracia, para desenvolverem e ganharem espaço para a sua visão da sociedade, do que o têm sido as forças de esquerda. Antes de mais porque estas cristalizaram há muito, em dogma e doutrina, aquilo que era apenas ponto de partida. Não tendo acrescentado uma única ideia nova que fosse, reinterpretado, desenvolvido, criticado – muitas vezes sequer percebido – ou ajustado à dinâmica do tempo e das sociedades, a visão daqueles que não tinham proposto mais do que apenas caminhos para uma sociedade mais justa. A ideia de revolução foi abandonada e os “partidos de esquerda” não vão hoje além de um programa social democrata, próximo da sua matriz de origem. Por cá, é assim que vão “andando”, por exemplo, PCP e BE. Em muitos casos até, aquém de um sindicalismo mínimo, de denúncia clara do capitalismo, que enuncie sem tibiezas a necessidade de lhe por fim, no caminho para uma economia mais justa.

“(…) porque é que os partidos de esquerda, que durante décadas foram muito críticos em relação à democracia liberal, são hoje os seus melhores e mais genuínos defensores? E porque razão o fazem no momento em que a falência da democracia liberal parece evidente? (…)”

       As consequências que BSS extrai da resposta que dá a estas questões não me contentam. E ao ossário de ideias que são hoje os ditos “partidos de esquerda” prefiro o grito lúcido e corajoso de Francisco: “esta economia mata!”. É pouco, mas, à falta de outras é uma referência segura para começar de novo. Não se trata já de despertar novos amanhãs que cantem: basta apenas que falem e, de preferência, que sejam hojes.

nelson anjos

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