Tão felizes que nós não éramos! – Uma
História da Família
“Falava ainda Jesus ao povo, e eis
que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora procurando falar-lhe. E
alguém lhe disse: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te. Porém
ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e quem são meus
irmãos? E estendendo a mão para os discípulos, disse: eis minha mãe e meus
irmãos. (Mateus 12:46-49)”
Desconheço se
algum antropólogo, ou sociólogo, se terá já ocupado do estudo dos meandros que conduziram
esta ideia de família, que os evangelistas – no caso, Mateus – atribuíram ao
Nazareno, ao cristianismo anão e pedófilo que os crentes de sacristia hoje professam.
Ou, na mesma linha de raciocínio, para tempos mais próximos, que caminhos, a
partir de Marx, terão levado aos campos de concentração de Estaline.
A ideia bíblica
da epígrafe não é estranha a alguns exemplos de modelo alternativo de família que
Andrée Michel refere no seu livro, Sociologia da Família e do Casamento.
Por exemplo, a família comunal da baía de S. Francisco, experimentada nas décadas
de 60/70 do século passado por muitos casais de jovens. (Quem, desta geração,
não recorda If you’re going to San Francisco?)
No seu livro a
autora ocupa-se dos traços essenciais das diversas formas de família que ao
longo da história se têm sucedido, centrando-se fundamentalmente na crítica à
chamada família parsoniana – a família da sociedade industrial estudada pelo
sociólogo norte-americano Talcott Parsons. Fundada na base do casal
homem/mulher, com exclusividade sexual mútua e uma rígida distribuição de
papéis por sexo. Homem na fábrica e mulher em casa. É a partir das suas opções
feministas que Andrée Michel entra em rotura com este modelo e seus derivados. Da
família de carreira dual – onde marido e mulher exercem atividade laboral fora
de casa – diz a autora que, fora a melhoria de estatuto no seio da família,
consequência de uma maior autonomia económica, a mulher fica agora sujeita a
uma condição de dupla exploração: no emprego, onde em regra aufere um salário
inferior ao do homem, para o mesmo trabalho; em casa, como prestadora de
serviços ao agregado familiar e sexo doméstico ao marido – sexo sério,
de procriação. Um e outro não remunerados.
Tão felizes
que nós não éramos! – poderia começar assim a história do casamento
monogâmico das sociedades industriais. A exclusividade sexual na família
monogâmica, principalmente por parte do homem, nunca passou de promessa: para
as classes mais abastadas havia a amante; para os mais desfavorecidos, a
casa de prostituição. A mulher, salvo um ou outro caso de maior audácia, e consequente
escândalo público no caso de se tornar conhecido – puta e desavergonhada
eram os adjetivos mínimos – contentava-se com fantasias do espírito para
amenizar o tédio que não tardava a instalar-se na relação. Não poucas vezes sucedia-se
a altercação e a porrada, que não se designava ainda por violência doméstica.
Andrée Michel
escreve no início da década de 80. Mas, lá por fora, lésbicas e gays reclamavam
já direito a constituir família reconhecida por lei; Lévy-Strauss já tinha
concluído que “a monogamia não é um atributo da natureza humana” e o homem é
tendencialmente polígamo; Simone de Beauvoir já tinha dito que “não nascemos
mulheres, tornamo-nos mulheres”. Mais tarde Judith Butler haveria de escrever
que, “mesmo que os sexos pareçam ser inquestionavelmente binários na sua
morfologia e constituição (o que iremos pôr em causa), não há nenhuma razão
para assumir que os géneros devam igualmente ser dois”. Por cá, “nós todos
bem”: tínhamos a “escrava do lar”, o “quanto mais me bates mais gosto de ti”, o
ciúme a traição e a saudade, e o fado que cantava tudo isto.
É verdade que já
passaram quarenta anos e, à época, não existiam ainda as novas formas de “parentesco
digital”. Mas, considerando o atávico conservadorismo da instituição família,
em geral, e o nosso proverbial atraso, em particular, o livro de A. Michel
mantém atualidade e exige leitura obrigatória.
nelson anjos
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