Breve
História da Democracia
Muito embora a
tendência para a pulverização, que se tem vindo a verificar na intervenção
política através da forma convencional partido, não pode deixar de ser
com alguma estranheza que, em sentido contrário, se vá assistindo ao estreitar
do espaço ideológico – cada vez mais reduzido a uma social democracia alargada.
Onde, para além das referências PS e PSD, acossados pelos ventos da história
procuram também abrigo refugiados de proveniência diversa, parasitando restos
de credos antigos, doutrinas e ideologias. Que apenas o preconceito, ou aspetos
secundários, teimam ainda em afirmar diferenças, onde já não existe outra coisa
que não seja uma conformada monotonia de cemitério.
Não sei se foi
disto que quis falar – ou disto também – Pacheco Pereira, em artigo no Público,
em data ainda não muito distante, ao referir que o PCP não era já aquele
partido de extrema-esquerda, que apenas em termos táticos mantinha um discurso
cordato e aceitava as regras da democracia liberal e o seu enquadramento
parlamentar.
No caso
português, nem o atávico esquematismo das sebentas do mundo académico, em
matéria de ciência política, permite já fundamentar a classificação de PCP, ou
BE, em prateleiras diferentes do universo do reformismo. E apenas por hábito da
história sejam ainda classificados como de “extrema-esquerda”, – como se de
“esquerda” não fosse já excessivo. Ainda assim, é de justiça saudar algumas
vozes dissonantes dos respetivos mantras oficialmente aceites. No outro extremo,
as diferenças não me parecem também de monta a impedir que na mesma cama se
acomode igualmente a IL. E que assim se constitua um espetro contínuo de
diferentes tonalidades de uma mesma cor.
O Chega, sim –
faz parte de “outro campeonato”. Temos assim um espetro político manco,
constituído por uma extrema direita e um vasto centro – como vastos são todos
os desertos – e uma esquerda amputada. Ou seja: que já não existe.
Tem sido este vasto e pantanoso território
a incubadora e sede desta democracia que, à pala das mais diversas
formas de igualdade – igualdade de direitos, igualdade de oportunidades, igualdade
de tudo e mais alguma coisa – tem produzido, acolhido e justificado as mais
gigantescas desigualdades na distribuição do produto do trabalho: de um lado os
super-ricos – uma escandalosa minoria que tudo tem – e do outro os super-pobres
– a maioria, vivendo cada vez mais à míngua de tudo.
É de muito do
que atrás fica dito que, de forma subentendida aqui, de forma explícita ali, se
ocupa a Breve História da Democracia de John Keane.
Há uma pergunta que percorre todo o livro:
“Quem é o povo?“ – e para a qual
vão sendo avançadas algumas “não-respostas”. Mas quando se diz que:
“(…) A
democracia difunde dúvidas quanto à “essência” das coisas, aos hábitos
inflexíveis e às disposições supostamente imutáveis. Estimula as pessoas a
verem que o seu mundo pode ser alterado. E, por vezes, conduz à revolução. (…)”
concluímos que se trata de um
livro notável de leitura que se recomenda. Por estas e por outras:
“(…) A
democracia representativa foi igualmente amaldiçoada por outra ameaça, para a
qual não havia uma solução fácil: o desafio de conciliar a visão democrática da
igualdade com a destruição e a ganância das economias capitalistas ávidas de
lucro. (…)
Thorstein
Veblen (1857-1929), economista e político norte-americano, observou quão
facilmente a democracia representativa poderia ser convertida num “manto para
cobrir a nudez de um governo que trabalha para as classes protegidas”. (…)
Os
rebeldes do decénio de 1940 sabiam demasiado. A sua tristeza e inquietação eram
demasiado profundas para suscitar lágrimas. Haviam testemunhado como a
democracia representativa fora uma oponente demasiado fraca e uma cúmplice
disponível da destruição totalitária. (…)”
Espero ter deixado indicações
suficientes para, dado os tempos que correm, não prescindir da leitura desta Breve
História da Democracia.
nelson anjos
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