"Os da minha rua"
“Nós
estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e
era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo
lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar
para a fome dele.
Normalmente
ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava.
Mexia-se sempre devagarinho, bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho
de sol para lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota
dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me
gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se
calhar, o Kazukuta, naquele olhar dele de ramela e moscas, às vezes, ele podia
estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota, sair e entrar,
tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a
entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida
dele.
Acho
que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós não lhe
ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele...
(excerto
do conto “O Kazukuta”, do livro ”Os da minha rua”, de Ondjaki)
Li
há dias, durante umas pequenas férias, um pequeno livro de pequenos contos de
um grande escritor, Ondjaki.
Ondjaki
é natural de Luanda e brinda-nos com este delicioso livro de contos sobre a sua
infância e adolescência passadas naquela cidade. O livro chama-se “Os da minha
rua”.
Neste
livro, há uma propositada naturalidade, uma certa infantilidade na forma, na
maneira de escrever, que contribui para dar corpo e sentido às várias estórias
narradas, levando-nos a reconhecer ali a nossa própria infância, a pensar
aquelas estórias quase como se fossem nossas. Também a linguagem, muito própria
do meio e muito directa, propositadamente pouco trabalhada, contribui para esse
fim.
O
livro faz-nos lembrar a simplicidade e a descomplexidade da vida. Na infância tudo
é mais simples, mais imediato, mais saboroso, mas simultaneamente tudo é vivido
com mais intensidade, com mais emoção.
Recomendo vivamente…
Luís Quinteiro

Comentários
O processo colonial, para além de ter acorrentado durante cinco séculos o que teria sido certamente um diferente processo de desenvolvimento para os povos vítimas dele, acorrentou asas e almas. Que ficarão para sempre truncadas. A literatura de tradição oral dos diversos povos angolanos - e dos outros - ficará, no essencial, para sempre sepultada por esses quinhentos anos de história. A escrita de Ondjaki, assim como a escrita da generalidade dos escritores angolanos, continua a ser a da palavra colonizada. E, para além disso, posteriormente reprimida pelos poderes despóticos locais que substituiram o colono. Pela prosa de Ondjaki perpassa ainda uma evidente brisa de luso-tropicalismo, ainda que ele não seja um exemplo típico dele. Aquela tese que nos dava como uma raça assim mais ou menos entre o preto e o branco, e que, supostamente, nos conferia capacidades naturais para estabelecer uma ponte cultural entre uns e outros. Uma espécie de colonialismo benigno, "bonzinho". O Estado Novo lidou com o luso-tropicalismo com um pau de dois bicos: num primeiro tempo, "o quê!? Nós parecidos com os pretos? Respeitinho! Preto é preto e branco é branco". E, num segundo tempo, aproveitando: "pois claro, somos todos irmãos! O nosso colonialismo não tem nada a ver com a brutalidade do colonialismo espanhol, francês ou inglês! Trata-se de um colonialismo humanista, levado a cabo em nome da civilização e da difusão da fé!". Ora, acrescento eu, só um cego é que não via isto.
Como é óbvio, o assunto dá pano para mangas. Mas eu fico-me por aqui. E, enquanto aguardo que surja alguma grande obra de escritor africano de língua portuguesa, vou lendo os luso portugueses Pepetela, Agualusa ou Ondjaki, entre outros.
nelson anjos
Todos os colonialismos, sem excepção, abafaram, puseram um tampão, sobre todo o tipo de expressões próprias dos povos colonizados, logo, também, sobre a expressão linguística escrita e falada, e especialmente sobre esta, de modo a haver por parte dos colonos um controlo mais fácil e mais eficaz das pessoas. Ou seja, na maioria dos casos as línguas nativas eram simplesmente banidas, sendo proibido qualquer tipo de expressão que não fosse pela via do colonizador. Tão mau que não consigo comentários.
Mas…, por outro lado…, os angolanos herdaram uma língua completamente estável e estruturada em termos falados e escritos que lhes permite comunicarem no imediato com os outros falantes da língua (ex: Brasil – 230 milhões de falantes) e com o resto do mundo, recorrendo à tradução, em ambos os sentidos (“Os da minha rua” está traduzido em 10 línguas). O mesmo já aconteceu outrora connosco ao herdarmos a escrita e a palavra romana.
Não entendo quando dizes: “enquanto aguardo que surja alguma grande obra de escritor africano de língua portuguesa, vou lendo os luso portugueses Pepetela, Agualusa ou Ondjaki, entre outros.”
- Para uma grande obra basta leres por exemplo “Os transparentes”, de Ondjaki, prémio Literário José Saramago 2013.
- Acho que “luso portugueses” foi erro e querias dizer luso angolanos. Mas eles todos são angolanos, nascidos em Angola, não têm nada de luso. O Pepetela lutou nas fileiras do MPLA, na guerra pela independência. O Ondaki inclusivamente já nasceu depois da independência.
A escrita deles é a da palavra colonizada, como afirmas, discordo totalmente. Que por ela perpassa ainda uma brisa de luso tropicalismo, pode ser. Angola é independente há quarenta e tal anos. Uma criança em termos históricos. E a História não se muda de um dia para o outro. Não há possibilidade de fazer um ”reset” e apagar tudo o que está para trás. Os tempos de outrora influenciam os de hoje, assim como os de hoje influenciarão os de amanhã. A questão é, será que a literatura que se faz hoje em Angola é boa? Respondo: É muito boa. Ainda assim, acredito que melhores dias virão em que ela estará completamente emancipada e os vindouros verão nas páginas agora escritas o nascer de uma verdadeira literatura angolana.
Quinteiro