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Cá dentro o professor Rui Correia fala do que passa dentro da escola, dentro dos alunos, dos professores e dos pais, mas não os isola em ilhas, relaciona-os em todas as suas desarmonias. O professor Rui não aponta dedos nem atribui culpas, mas reconhece a urgência da escola e lá dentro, os professores, servirem os alunos que a frequentam, reconhecendo neles a casa  de onde vêm todas as manhãs, o seio familiar onde se movem e aprendem a ser pessoas, os lugares que frequentam dali para fora... é que dentro de cada aluno vive essa pessoa múltipla que muitas escolas (e dentro delas muitos professores) insistem em não ver, não considerar na equação.

Cá dentro, o professor Rui oferece uma bagagem de estratégias para que os menos criativos se inspirem e se tornem eles inspiradores.

Mas cá dentro há também os mínimos, que ao pecar por excesso de urgência e atualidade, são diariamente atropelados. O mínimo de uma letra legível, o mínimo do cálculo mental, o mínimo da História, o mínimo da literatura...

Cá dentro o professor Rui Correia prova (não que necessitasse de o fazer) porque ganhou o Global Teacher Prize Portugal 2019.

 Rita Anjos


Comentários

Como se dizia dantes: cá para mim, a Rita tem um “fraquinho” pelo professor Rui. Não é pecado. Isso também sempre aconteceu CÁ DENTRO. Mas continuando a falar a sério: de há muito que tenho a perceção que, pelo menos no que diz respeito à componente “educação”, a escola constitui apenas um contributo entre muitos outros. Em tempos há muito idos terá sido, por ventura, a família o fator decisivo. Ou, em termos mais genéricos, o meio social envolvente em que à família se juntava também a vizinhança próxima que, pelo menos nas grandes urbes, paradoxalmente há muito deixou de existir. O ilustre desconhecido que mora no apartamento do lado, no de cima ou no de baixo, já não tem o estatuto de “vizinho”; uma espécie de prolongamento da família. A televisão substituiu-o. E posteriormente a internet e as redes sociais, já como uma extensão do espaço social onde acontece aquilo que normalmente designamos por “vida”. Entretanto, para muitos, já aconteceu a inversão: foi a vida que passou à categoria de extensão da internet, onde agora se passa o essencial. Por outro lado, a escola, como tudo o mais, perdeu também em permanência e ganhou em volatilidade. E, nesse sentido, transformou-se num produto de consumo onde métodos, modelos, conteúdos, normas e processos se sucedem, e onde umas vezes o mais recente apaga tudo o que o anterior deixou ou, no extremo oposto, se limita a copiá-lo “pintando-o” apenas com cores diferentes.
Não conheço o livro que a Rita nos trás mas fico com alguma curiosidade. Será possível uma ou duas daquelas passagens que muitas vezes sintetizam o essencial do pensamento do autor?
nelson
Rita Anjos disse…
Claro que sim! Aqui fica uma minúscula amostra:
" A escola preenche um lugar que, uma vez vazio, também nunca ficaria por ocupar. A vida sempre se encarregou de fazer aprender quando a escola não estava disponível. Sempre existiu vida sem escola. Ainda hoje são aos milhões as pessoas que não têm acesso a uma escolaridade. Os níveis de desenvolvimento dessas comunidades são exclusivos e socialmente diminutos. Mas sempre existiu vida sem escola, o que nunca existiu foi vida sem aprendizagem."
Se bem interpretei o excerto que a Rita “postou”, parece-me que o que atrás deixei escrito se alinha também pelo pensamento do autor. Pelo menos no que respeita a janela de questões focadas. Posto isto resta-me referir que, o que disse não pretende sustentar qualquer ideia de dispensa da escola ou sequer de desvalorização. O que penso é que, dada a velocidade a que as sociedades têm vindo a sofrer transformações, nomeadamente pelo menos ao longo dos últimos cinquenta anos, a escola e o que se pretende deva ser o seu papel terão de se repensar e questionar profundamente, para além de remendos de emergência, sobe pena da instituição continuara perder valor social. E o mesmo se poderá dizer de muitas outras instituições estruturantes das sociedades. Desde o topo – o próprio estado – aos níveis mais baixos. Como por exemplo a família. Reformar é preciso. E onde reformar não for suficiente ou sequer possível, revolucionar.
nelson
Quinteiro disse…

Não li este livro nem nenhum outro de semelhante matéria e confesso que conheço quase nada do que se passa hoje no interior e nas “imediações” das escolas. Por isso é-me difícil comentar. Mesmo assim, pelo interesse do tema, arrisco:

Pelo que me é dado a conhecer, as escolas, principalmente os primeiros ciclos, mudaram muito desde que eu por lá passei. Os métodos de ensino e sobretudo o acompanhamento dos alunos por parte dos professores são substancialmente diferentes. O ensino e acompanhamento na altura eram mais à base de reguadas, bofetadas, puxões de orelhas e outros mimos similares. Certo dia, teria eu 11 ou 12 anos, no chamado “Ciclo Preparatório” (5º e 6º ano de hoje), o meu professor de francês estalou uma canada (com uma cana da índia, espécie de bambu) na minha cabeça, por eu, ao escrever um ditado no quadro da sala, hesitar ao escrever a palavra “ela” em francês, ou seja, momentaneamente não me lembrava se era “ele” ou “elle”. Como todos saberão, a canada na cabeça servia para nos activar as funções cerebrais e nos reavivar a memória. De tal modo que instantaneamente escrevi “elle” e andei duas ou mais semanas com um galo negro na cabeça do tamanho de uma noz para nunca mais esquecer como se escrevia “ela” em francês.

Em completa oposição aos métodos acima descritos, há quem defenda que a escola deveria ser livre, não obrigatória. Os professores, os homens/mulheres do saber, estariam na escola, como na antiguidade, Sócrates ou Platão, e receberiam os alunos que os questionariam sobre as matérias que estudavam ou que lhes interessavam. Os alunos escolheriam este ou aquele professor consoante a sabedoria deste na matéria em estudo.
A mim parece-me uma ideia interessante. Seria uma forma de tornar a escola mais apelativa, pois qualquer um poderia escolher as matérias que mais lhe interessassem e daí estudar com mais agrado, mais empenho. Seria também um modo de “desinstitucionalizar” as escolas, de torna-las não um dever mas uma descoberta.

Como se faria isto, sobretudo com os mais jovens, crianças e adolescentes, não faço a mínima ideia. Provavelmente é uma utopia, não resultaria. De certeza que o bom método estará entre uma e outra forma, pois “no meio é que está a virtude”. Uma coisa é certa, ainda muito tem de ser feito no nosso país, não só pelos professores, mas por todos sem excepção, para que a aprendizagem, a instrução, a educação, sejam um sucesso, sendo isso de importância vital para o país e para as gerações futuras.

PS:
O ditador Salazar, num dos seus célebres discursos à nação transmitidos pela RTP, dizia: "Os portugueses, devido à sua riqueza interior, não sentem necessidade de aprender a ler".

Quinteiro
A odisseia escolar do Quinteiro traz-me à memória outra célebre frase de Salazar que expressa bem a conceção de pedagogia do tempo: "A escola é a sagrada oficina das almas". Esta frase esteve até há não muito tempo na frontaria de uma escola em Viseu. Passei há poucos meses por lá e a marca era ainda suficientemente legível. Como se sabe, uma das ferramentas sempre presente nas antigas oficinas era o malho. Um martelo com que se dava forma ao ferro depois de devidamente aquecido na forja. Ainda era assim na velha escola industrial de Tomar onde andei. Ora, na escola, o equivalente ao malho era a cana e a régua. Tenho cá para mim que Quinteiro não foi suficientemente malhado ...
Rita Anjos disse…
... hoje em dia malha-se a invisível parte do ser humano... também é mau, também é perigoso, também não acrescenta, também é degradante...
Sinto aqui um orgulhozinho docente por caminhar na minha profissão com a escola do senhor que ainda no século IX disse que não se pode ser verdadeiramente Homem sem se saber ler. O senhor João de Deus que escreveu a Cartilha Maternal para responder à urgência de ensinar a ler, para que as mães ensinassem os filhos e estes viessem a ser Homens de verdade.
As escolas são necessárias ainda hoje; para muitos é onde podem confraternizar com os outros alunos e ter professores, que os podem ajudar a seguir um objectivo... Pois em família, muitos são os que ficam aquém da sintonia de que é importante aprender! A aprendizagem da leitura é fascinante! A mente que absorve informação é mais observadora e competitiva. Questiona-se sobre o mundo e a sua forma de poder fazer parte da mudança. Estamos sempre em aprendizagem, de qualquer forma.

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