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  Tão felizes que nós não éramos! – Uma História da Família        “ Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te. Porém ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E estendendo a mão para os discípulos, disse: eis minha mãe e meus irmãos. (Mateus 12:46-49)”          Desconheço se algum antropólogo, ou sociólogo, se terá já ocupado do estudo dos meandros que conduziram esta ideia de família, que os evangelistas – no caso, Mateus – atribuíram ao Nazareno, ao cristianismo anão e pedófilo que os crentes de sacristia hoje professam. Ou, na mesma linha de raciocínio, para tempos mais próximos, que caminhos, a partir de Marx, terão levado aos campos de concentração de Estaline.        A ideia bíblica da epígrafe nã...
  Uma Tragédia Portuguesa   As forças políticas antidemocráticas vão-se infiltrando dentro do regime democrático, vão-no capturando, descaracterizando-o, de maneira mais ou menos disfarçada, e gradual, dentro da legalidade e sem alterações constitucionais, até que em dado momento o regime político vigente, sem ter formalmente deixado de ser uma democracia, surge como totalmente esvaziado de conteúdo democrático, tanto no que respeita a vida das pessoas como das organizações políticas. (Santos, Boaventura de Sousa, Esquerdas do Mundo, Uni-vos!, Coimbra, Almedina, 2019)          A figura do infiltrado , que Irene Flunser Pimentel (IFP) trata no seu mais recente livro – Informadores da PIDE, Uma Tragédia Portuguesa – levou-me a recuperar a passagem da obra de Boaventura Sousa Santos (BSS), Esquerdas do Mundo, Uni-vos! , que atrás transcrevi e que já tinha sido objeto de referência em texto anterior: “ As forças políticas antidemocrática...
  Esquerdas de Todo o Mundo, Uni-vos (?)        Volto a Boaventura Sousa Santos (BSS). Desta vez com Esquerdas de Todo o Mundo, Uni-vos! , onde substituo o ponto de exclamação do título do livro por um ponto de interrogação (?). Ao sentido, ou não, do apelo, coloca-se-me antes de mais a necessidade de resposta à(s) pergunta(s): unir para quê? em torno de que grande ou grandes ideias? – que de ideais está o mundo cheio. “(…) Continuam a ser possíveis rupturas violentas e golpes de Estado, mas é cada vez mais evidente que os perigos que a democracia hoje corre são outros, e decorrem paradoxalmente do normal funcionamento das instituições democráticas. As forças políticas antidemocráticas vão-se infiltrando dentro do regime democrático, vão-no capturando, descaracterizando-o, de maneira mais ou menos disfarçada, e gradual, dentro da legalidade e sem alterações constitucionais, até que em dado momento o regime político vigente, sem ter formalmente deix...
  Revolucionar a Democracia       Talvez para se furtar a engulhos com o patrono da obra – a Fundação Mário Soares – Boaventura Sousa Santos (BSS) , em vez da palavra “Revolucionar” optou pela palavra “Reinventar”. Reinventar a Democracia é o título deste seu pequeno livro, onde o adjetivo “pequeno” não tem outro sentido que não seja o de referir a dimensão física do volume. Com efeito, as cerca de setenta páginas, em formato de bolso, sintetizam o resultado de uma reflexão extremamente rica sobre a questão da democracia, que muito embora os anos já decorridos depois da sua publicação – cerca de um quarto de século – mantém, a meu ver, toda a atualidade, concorde-se ou não com as ideias defendidas.        Num tempo em que as chamadas “democracias liberais”, podadas logo à nascença – qual bonsai – para não crescerem mais do que o permitido , se encontram ameaçadas por toda a Europa, mas também por outras latitudes, importa...
  Os Idiotas Digitais e os Outros               Os Idiotas Digitais e os Outros – é o título alternativo que proponho para A Fábrica de Cretinos Digitais , de Michel Desmurget.        Em todos os tempos, ao longo da sua história, o homem deparou-se com a necessidade de substituir velhos saberes, por outros, que foi paulatinamente desenvolvendo, para melhor responder aos desafios colocados pela sua própria existência. Claro que, quando o neto mais atrevido do clã se lembrou de tapar a entrada da caverna com um enorme pedregulho, para maior proteção contra os ataques noturnos das feras, terá ouvido o coro unânime de pais e avós que habitavam também o “condomínio”: - Este rapaz é maluco! Vai-nos matar a todos com falta de ar. Além do mais, nem sequer poderemos ver as estrelas, o luar, ou o nascer do Sol, para sabermos quando sair da caverna e irmos caçar e procurar frutos.   ...
  A Palavra e o Silêncio                A ciência é o conhecimento produzido pela mente humana em interação com a “realidade”, bem como os processos da sua aquisição e verificação, tendo como suporte de validação a experiência.        Será certamente porque a morte, um fenómeno que pela sua natureza não permite a utilização posterior da experiência, muito embora confrontando o homem com ela desde as suas origens, continua a ser espaço mais de dúvida, perplexidade e ignorância do que de saber. E, por consequência, organizando-se o pensamento na base da utilização das palavras, sejam estas escassas relativamente à questão da morte.        Fui há dias confrontado com ela – a minha morte – ao ser atendido pela minha gestora de conta numa instituição bancária. Havia um novo produto ao qual eu era convidado a aderir: nem mais nem menos que um seguro destinado...
  Como Morrem as Democracias        Em vez da morte preferia uma proposta/plano dos autores – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores universitários em Harvard – orientada principalmente para a defesa da democracia, assente desde logo no seu aprofundamento e desenvolvimento. E sobre tal assunto a obra não avança muito. Ficando-se pela ideia de que, se para além dos princípios fundadores inerentes à própria ideia de democracia, vertidos nas constituições, forem acauteladas práticas de bom senso tais como tolerância mútua e autolimite institucional, tudo caminhará sobre esferas e a democracia terá assegurada a glória da vida eterna (a “glória da vida eterna” é minha).        Olhem que não Senhores Doutores, olhem que não! – Assim… prefiro Marx. Embora não seja marxista. Ou melhor: sou-o, no sentido em que sou também muitas outras coisas. O homem não sabia tudo mas sabia por exemplo que a democracia, como qualque...